Um dos aspectos do discurso civilizador é que só é “civilizada” a sociedade em que o Estado a alcança. Sem a burocratização impera a anarquia, a barbárie. Essa visão ganha força, principalmente, com a formação das Monarquias Nacionais. Tema, a propósito, muito bem elucidado pelo historiador Norbert Elias, em O Processo Civilizador.
Toda incursão colonialista carrega consigo essa retórica. O europeu - civilizado pois reconhece o Estado como um mantenedor da ordem - possui não uma missão exploratória, quando chega nas Américas, mas sim uma missão civilizadora. As colônias inglesas, concentradas na costa leste da América do Norte, eram expoentes desse pacto. Os poucos vilarejos, ranchos e fazendas, mais para o Oeste - e que abrange também parte do atual México - representavam uma área cinzenta.
O Oeste norte-americano abrigava ainda nativos que resistiam, a sua forma, da violência colonizadora, mascarada pelo discurso civilizador. Os colonos, ao abandonarem sua nacionalidade inglesa e fundarem o seu próprio Estado, na luta emancipacionista, passaram a assumir essa empreitada. E aí começa a famosa marcha para o Oeste.
Desde meados do século XIX, bebendo nas águas podres do Darwinismo social, passou-se a se difundir, nos Estados Unidos, o que o jornalista John Louis O’Sullivan chamou de Destino Manifesto. Trata-se da versão estadunidense da retórica civilizadora. Essa visão torpe garantia aos Estados Unidos, enquanto sociedade “superior”, o dever e obrigação de ocupar terras a oeste, expandindo os seus domínios até a costa do Oceano Pacífico. No processo, tribos indígenas foram expulsas de seus territórios (ou mortos) e guerras - como contra o México pelo Texas - foram travadas.
A história de Red Dead Redemption (2010) e sua continuação, Red Dead Redemption 2 (2018), se passa justamente nesse período do passado estadunidense, que pega a segunda metade do século XIX e o início do século XX. Uma vez concluída a missão de ocupação territorial, engravatados do leste, autoridades e o próprio governo dos Estados Unidos tentam burocratizar e “trazer civilidade” a vida dos moradores dessas terras, que resistem a esse processo.
O título se afasta da sátira escrachada da franquia GTA, mas não abandona o cinismo e a crítica àquela sociedade. O choque entre as ideias de tradição e progresso, barbárie e civilidade, é um dos principais focos narrativos do mundo do jogo. A história pode até ir para outro caminho: a redenção de John Marston e Arthur Morgan. Mas, o mundo de RDR, fala. São, justamente, as transformações ocorridas no oeste estadunidense e a percepção desconfiada das pessoas daquele mundo sobre essas mesmas transformações, o principal atrativo narrativo.
Em Red Dead Redemption 2 - prólogo do título original - Arthur quer se redimir de seus pecados ajudando John a abandonar de vez a criminalidade e dar a família do companheiro uma vida digna. John vira um rancheiro, pai de família e busca se encaixar naquele mundo alienígena aos seus olhos. Porém, a tentativa de Marston de se enquadrar na ideia de civilidade é frustrada. E esse é o fio condutor do primeiro jogo. O governo dos Estados Unidos, sequestra a sua família e o obriga a caçar seus antigos companheiros de gangue.
O discurso do primeiro jogo abraça muito mais a hipocrisia da retórica civilizadora, quando agentes do Estado o força a agir, novamente, como uma fora da Lei. O texto é cínico ao extremo, não só no discurso nacionalista acerca da construção dos Estados Unidos, mas também em outros pontos políticos importantes. Isso fica bem claro, por exemplo, na forma que o título aborda a Revolução Mexicana. O líder dos rebeldes é retratado de forma tão imoral quanto o próprio regime ditatorial que ele tenta combater.
A descrença na ideia de civilidade, em RDR, é constantemente posta à prova. Arthur, por outro lado, acredita no sonho americano. Nesse sentido, o niilismo do primeiro jogo é abandonado por um otimismo utópico no segundo. E isso é proposital. Inclusive, jogar RDR depois de fechar a história de RDR2 acrescenta ainda mais camadas ao jogo. Porém, RDR2 é mais político no que se refere ao mundo que exploramos. Temas importantes como o do movimento feminista e as sufragistas são abordados de forma não satírica, mas com respeito. Em contrapartida, fica claro a repulsa ao racismo e seitas que pregam a superioridade racial, como a Klu Klux Klan. Esse último, inclusive, magistralmente, retratados como idiotas que são.
Agir ou não conforme estipula a Lei, garante uma pontuação positiva que determina a percepção da sociedade sobre os personagens e desbloqueia auxílios e melhorias que ajudam a terminar a campanha. E isso é genial! Uma recompensa por aceitar a ideia de civilidade. O discurso em ambos os títulos não é revolucionário ou tenta fazer, de forma mais contundente, uma crítica aberta ao sistema capitalista. Não que a Rockstar tenha prometido algo do tipo. Como uma nação composta, majoritariamente, por imigrantes, RDR apenas apresenta um recorte do impacto dessa imposição estadunidense para diversos grupos étnicos presentes na região. A reflexão que ele evoca, no fim, é suficiente para expor sua grandeza.






